Quando criança, fascinavam-me as bonecas novas, reluzentes nas prateleiras, com cheirinho de plástico novo e seus vestidos impecáveis. Era com elas que eu sonhava brincar. Não me serviam as emprestadas, usadas ou as antigas. Tinha de ser nova!Eu tinha de ser a primeira a pentear os cabelos, trocar o vestido e arrumar algum novo acessório.
Temia que viessem quebradas, faltando-lhes alguma lasquinha, que tivessem lhe trocado a roupa por uma menos cor-de-rosa ou beijado-lhe a face antes de dormir. Eu tinha de ser a primeira!
Até encontrar a boneca mais bonita que já pude ter...À primeira vista parecia "quase" nova, ainda podia sentir o cheirinho fascinante de quando elas estão na prateleira, mas não pude ler o manual de instruções, nem, sequer, conhecer a caixa de onde veio. Não me pareceu tão mal, eu queria ela para mim, do mesmo jeito! Era MINHA!
Aos poucos, fui conhecendo seus velhos donos e pude perceber que já haviam mudado seu penteado muitas vezes, aposentado-lhe o vestido rosa-choque e ter conhecimento de que nenhum deles, jamais, havia lhe dado um beijo de boa noite e coberto-lhe o corpinho para poupar-lhe do frio das madrugadas.
Por alguns minutos, aquilo me causou uma tristeza sem fim. Podia tê-la deixado de lado, mas preferi consertar-lhe as perninhas tortas, os cabelos bagunçados, dar-lhe novos sapatinhos e um cobertor. Preferi transformar aquele ar de tristeza em um novo sorriso, pintado com canetinha vermelha e ajeitei-lhe os cílios grandes que enfeitaam os olhos levemente puxados nos cantos. Arrumei presilhas coloridas, uma de cada cor e levei-a comigo para ver o sol. Dei-lhe um apelido carinhoso e todos os dias, antes de dormir, mando-lhe um beijo de boa noite...E mal sabe ela que um dia ainda hei de construir-lhe um castelo. E talvez ela não saiba, também, que eu nunca mais vou deixa-la sozinha, esquecida em algum cantinho perto da solidão. Nunca mais!
"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector)



