quarta-feira, 18 de novembro de 2009

À minha boneca

Quando criança, fascinavam-me as bonecas novas, reluzentes nas prateleiras, com cheirinho de plástico novo e seus vestidos impecáveis. Era com elas que eu sonhava brincar. Não me serviam as emprestadas, usadas ou as antigas. Tinha de ser nova!
Eu tinha de ser a primeira a pentear os cabelos, trocar o vestido e
arrumar algum novo acessório.
Temia que viessem quebradas, faltando-lhes alguma lasquinha, que tivessem lhe trocado a roupa por uma menos cor-de-rosa ou beijado-lhe a face antes de dormir. Eu tinha de ser a primeira!

Até encontrar a boneca mais bonita que já pude ter...À primeira vista parecia "quase" nova, ainda podia sentir o cheirinho fascinante de quando elas estão na prateleira, mas não pude ler o manual de instruções, nem, sequer, conhecer a caixa de onde veio. Não me pareceu tão mal, eu queria ela para mim, do mesmo jeito! Era MINHA!
Aos poucos, fui conhecendo seus velhos donos e pude perceber que já haviam mudado seu penteado muitas vezes, aposentado-lhe o vestido rosa-choque e ter conhecimento de que nenhum deles, jamais, havia lhe dado um beijo de boa noite e coberto-lhe o corpinho para poupar-lhe do frio das madrugadas.
Por alguns minutos, aquilo me causou uma tristeza sem fim. Podia tê-la deixado de lado, mas preferi consertar-lhe as perninhas tortas, os cabelos bagunçados, dar-lhe novos sapatinhos e um cobertor. Preferi transformar aquele ar de tristeza em um novo sorriso, pintado com canetinha vermelha e ajeitei-lhe os cílios grandes que enfeitaam os olhos levemente puxados nos cantos. Arrumei presilhas coloridas, uma de cada cor e levei-a comigo para ver o sol. Dei-lhe um apelido carinhoso e todos os dias, antes de dormir, mando-lhe um beijo de boa noite...E mal sabe ela que um dia ainda hei de construir-lhe um castelo. E talvez ela não saiba, também, que eu nunca mais vou deixa-la sozinha, esquecida em algum cantinho perto da solidão. Nunca mais!

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector)

domingo, 8 de novembro de 2009

"Moça, olha só o que eu te escrevi" :


De uma madrugada, quase dia, surgiu um esboço do que me parecia ser uma boneca, ou algo próximo de um bibelô...Louça de enfeitar estante, onde criança não pode mexer para não quebrar. À segunda vista, ganhou traços finos, voz, sons e cheiro, virou boneca de plástico, daquelas que a gente quer vestir, despir, pentear a toda hora, mas parecia coisa que só criança pode brincar...Até que o cheiro virou gosto, a voz ganhou versos, rimas, prosas e poesias. A boneca ganhou vida, e minha vida ganhou cores.
Em uma sexta-feira de inverno, meus dias tornaram-se primavera e uma orquídea lilás brotou e fincou raiz. A menina deixou de ser a criança, tornou-se a mulher, a boneca tornou-se a brincadeira predileta e eu pude, enfim, voltar a sonhar.
Os dias tão curtos, as tardes infindas e as noites em claro, onde só ouço os sons que descobrimos na outra. As mãos com os cantinhos das unhas roídos, de toque pesado e desgovernado, de quem tem sede de tudo, ao mesmo tempo, agora. A vontade de aprender os detalhes, de crescer e descer das prateleiras da loja de brinquedos, o sorriso largo, que tenta um ar de malícia, mas em segundos pode ganhar a ingenuidade de quem ainda não sabe que o amor é um terreno para adultos. E no ir e vir das nossas pernas, pelos caminhos da vida, e por tantos outros, a mocinha virou gente grande, tão grande que quase não cabe dentro de mim...Transborda pelas frestas do meu coração já calejado, como mágica cura todas as feridas e apaga as dúvidas diante da matemática dos anos que não nos favoreceu...Mas, mesmo em meio a toda essa imensidão, ela não deixou de ser pequena, a MINHA!

Para Amanda Lima (com figa).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Se queres partir ir embora. Me olha da onde estiver ..."


18 de Outubro de 2009

Não chovia, fazia um sol acolhedor...Era domingo, daqueles em que acorda-se cedo para aproveitar o almoço em família, assistir os mesmos programas na TV, compartilhar o silêncio que cobre as ruas, rompidos apenas pelos sons das crianças sorrindo...Sorrisos em boa parte pelo fato de terem suas avós...
Não, não era dia de ir embora...Na verdade, não deveria ser nunca!
Mas, meu amor, anjos precisam voar...
No céu havia um brilho diferente, quase podia-se ouvir um som de berimbau, embalando os corações apertados daqueles que ficam com a saudade... Saudade das rasteiras, dos sorrisos arrancados pelos netos queridos, das palmas conseguidas no último parabéns...
-Vó?
(Silêncio...)
-Ela foi embora?
-Não, Guimba... Elas não vão NUNCA!
-Não chora, Porta! (Ô meio metro de gente forte!)
-Ta bem, mas posso te abraçar?
(Silêncio)
Não há muito o que ser dito...Queria garantir que um dia o vazio se preenche, mas não é assim! O vazio transforma-se em imensidão a cada nova lembrança, a cada momento de gratidão, a cada fotografia...
A certeza de que foi feito o melhor sempre, que valeu cada segundo de cuidado que , mesmo diante do silêncio, tenho certeza que sempre foi reconhecido e de tudo o que ela mais levou foram os infinitos sorrisos de uma das família mais incríveis e unidas que já conheci na vida.
" 'Carmen' pode ir tranquila...Teu rebanho ta pronto"
Pronto mesmo que com a sensação de estar agora incompleto...Está repleto de pessoas honestas, cheias de caráter e que conhecem profundamente o sentido da palavra amor...Amor aquele que plantaste quase sem querer, que colheste quando mais precisou e que quando tivestes de ir embora deixaste inundando em lágrimas os corações que te queriam por, pelo menos, mais um dia.
Eu sei que você não podia mais ficar, não porque não quisesse, mas porque lá de cima, ao lado Dele, é bem mais fácil de guiar os passos dos que tudo fizeram para lhe arrancar um sorriso...
Pode ir tranquila sim... Seu papel foi cumprido, da forma mais brilhante que poderia.
E agora não se preocupe, as lágrimas serão enxugadas por todos nós que, de alguma forma, estamos por perto do 'rebanho' incrível que deixaste.
Segue pro céu, praquele cantinho reservado para as avós... E sempre que olhar cá pra baixo, mira no sorriso daquele "meio-metro-de-gente" e tenha certeza de que deixou o melhor que podia! E ouça os versos da cançao que cantava pra te arrancar ums risada: "se você pensa que cachaça é água" e sorri, pois é a lembrança do teu sorriso tímido que vai acompanhar essas vidas para sempre!
Vai com Deus, vovó!

Para Flávia Paulo, a MINHA Guimba, para tia "carmão" e todos as sementinhas plantadas pela Vó Carmen, com muito amor, cumplicidade e meu abraço mais confortável... Uma homenagem para compensar a ausência e para dizer que lhes admiro DEMAIS!

sábado, 3 de outubro de 2009

"De todo amor que eu tenho / Metade foi tu que me deu"


1° de Janeiro de 2000

Chovia, sabe? Eu posso lembrar de cada segundo daquela manhã... Acordei enrolada no edredon cor-de-rosa, o telefone tocava. Do outro lado da linha uma voz embargada, avisando que ela não estava bem...Todos nós sabíamos, mas anjos não vivem para sempre?
Não, minha filha... Um dia eles voam de volta!
Chovia tanto, o dia estava nublado, mas em algum lugar devia haver um sol...
Por questão de dez minutos, de pura covardia, eu não pude dizer adeus. Meus passos não alcançaram, minhas lágrimas não me permitiram enxergar, minha dor não conseguiu fazer com que meus joelhos permanecessem firmes.
-Vó! Me diz que você ainda está aí?...Abre os olhos e me vê, pela última vez, por favor!
(silêncio)
-Me deixa aqui com ela...Eu só quero afagar seus cabelos branquinhos, lisos e finos como os meus...Pela última vez eu quero sentir aquele cheirinho de alfazema, sentir aquelas mãos gordinhas afagando meu rosto...Só mais UMA vez, por favor!
"Ó meu pai do céu, limpe tudo aí / Vai chegar a rainha, precisando dormir..."
Ela foi embora, no primeiro dia do novo milênio...Anunciavam um possível fim do mundo e eles tinham razão, meu mundo nunca mais foi o mesmo, sem ela.
Ela levou consigo a flor feita de palha de milho, presente de outros carnavais, e deixou um legado de amor... Sete que é conta de mentiroso ela transformou em número de sorte e somou com cinco mais um.
E eu não pude dizer, pela última vez, obrigada! E eu não pude mais ouvir sua voz doce, pedir batata-frita com couve, apertar sua barriga para ela imitar boneca de corda...Eu não pude dizer o quanto eu a amava...
-Vó!
(silêncio)
Chovia, sabe? Chovia muito...