
De uma madrugada, quase dia, surgiu um esboço do que me parecia ser uma boneca, ou algo próximo de um bibelô...Louça de enfeitar estante, onde criança não pode mexer para não quebrar. À segunda vista, ganhou traços finos, voz, sons e cheiro, virou boneca de plástico, daquelas que a gente quer vestir, despir, pentear a toda hora, mas parecia coisa que só criança pode brincar...Até que o cheiro virou gosto, a voz ganhou versos, rimas, prosas e poesias. A boneca ganhou vida, e minha vida ganhou cores.
Em uma sexta-feira de inverno, meus dias tornaram-se primavera e uma orquídea lilás brotou e fincou raiz. A menina deixou de ser a criança, tornou-se a mulher, a boneca tornou-se a brincadeira predileta e eu pude, enfim, voltar a sonhar.
Os dias tão curtos, as tardes infindas e as noites em claro, onde só ouço os sons que descobrimos na outra. As mãos com os cantinhos das unhas roídos, de toque pesado e desgovernado, de quem tem sede de tudo, ao mesmo tempo, agora. A vontade de aprender os detalhes, de crescer e descer das prateleiras da loja de brinquedos, o sorriso largo, que tenta um ar de malícia, mas em segundos pode ganhar a ingenuidade de quem ainda não sabe que o amor é um terreno para adultos. E no ir e vir das nossas pernas, pelos caminhos da vida, e por tantos outros, a mocinha virou gente grande, tão grande que quase não cabe dentro de mim...Transborda pelas frestas do meu coração já calejado, como mágica cura todas as feridas e apaga as dúvidas diante da matemática dos anos que não nos favoreceu...Mas, mesmo em meio a toda essa imensidão, ela não deixou de ser pequena, a MINHA!
Para Amanda Lima (com figa).


