domingo, 8 de novembro de 2009

"Moça, olha só o que eu te escrevi" :


De uma madrugada, quase dia, surgiu um esboço do que me parecia ser uma boneca, ou algo próximo de um bibelô...Louça de enfeitar estante, onde criança não pode mexer para não quebrar. À segunda vista, ganhou traços finos, voz, sons e cheiro, virou boneca de plástico, daquelas que a gente quer vestir, despir, pentear a toda hora, mas parecia coisa que só criança pode brincar...Até que o cheiro virou gosto, a voz ganhou versos, rimas, prosas e poesias. A boneca ganhou vida, e minha vida ganhou cores.
Em uma sexta-feira de inverno, meus dias tornaram-se primavera e uma orquídea lilás brotou e fincou raiz. A menina deixou de ser a criança, tornou-se a mulher, a boneca tornou-se a brincadeira predileta e eu pude, enfim, voltar a sonhar.
Os dias tão curtos, as tardes infindas e as noites em claro, onde só ouço os sons que descobrimos na outra. As mãos com os cantinhos das unhas roídos, de toque pesado e desgovernado, de quem tem sede de tudo, ao mesmo tempo, agora. A vontade de aprender os detalhes, de crescer e descer das prateleiras da loja de brinquedos, o sorriso largo, que tenta um ar de malícia, mas em segundos pode ganhar a ingenuidade de quem ainda não sabe que o amor é um terreno para adultos. E no ir e vir das nossas pernas, pelos caminhos da vida, e por tantos outros, a mocinha virou gente grande, tão grande que quase não cabe dentro de mim...Transborda pelas frestas do meu coração já calejado, como mágica cura todas as feridas e apaga as dúvidas diante da matemática dos anos que não nos favoreceu...Mas, mesmo em meio a toda essa imensidão, ela não deixou de ser pequena, a MINHA!

Para Amanda Lima (com figa).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Se queres partir ir embora. Me olha da onde estiver ..."


18 de Outubro de 2009

Não chovia, fazia um sol acolhedor...Era domingo, daqueles em que acorda-se cedo para aproveitar o almoço em família, assistir os mesmos programas na TV, compartilhar o silêncio que cobre as ruas, rompidos apenas pelos sons das crianças sorrindo...Sorrisos em boa parte pelo fato de terem suas avós...
Não, não era dia de ir embora...Na verdade, não deveria ser nunca!
Mas, meu amor, anjos precisam voar...
No céu havia um brilho diferente, quase podia-se ouvir um som de berimbau, embalando os corações apertados daqueles que ficam com a saudade... Saudade das rasteiras, dos sorrisos arrancados pelos netos queridos, das palmas conseguidas no último parabéns...
-Vó?
(Silêncio...)
-Ela foi embora?
-Não, Guimba... Elas não vão NUNCA!
-Não chora, Porta! (Ô meio metro de gente forte!)
-Ta bem, mas posso te abraçar?
(Silêncio)
Não há muito o que ser dito...Queria garantir que um dia o vazio se preenche, mas não é assim! O vazio transforma-se em imensidão a cada nova lembrança, a cada momento de gratidão, a cada fotografia...
A certeza de que foi feito o melhor sempre, que valeu cada segundo de cuidado que , mesmo diante do silêncio, tenho certeza que sempre foi reconhecido e de tudo o que ela mais levou foram os infinitos sorrisos de uma das família mais incríveis e unidas que já conheci na vida.
" 'Carmen' pode ir tranquila...Teu rebanho ta pronto"
Pronto mesmo que com a sensação de estar agora incompleto...Está repleto de pessoas honestas, cheias de caráter e que conhecem profundamente o sentido da palavra amor...Amor aquele que plantaste quase sem querer, que colheste quando mais precisou e que quando tivestes de ir embora deixaste inundando em lágrimas os corações que te queriam por, pelo menos, mais um dia.
Eu sei que você não podia mais ficar, não porque não quisesse, mas porque lá de cima, ao lado Dele, é bem mais fácil de guiar os passos dos que tudo fizeram para lhe arrancar um sorriso...
Pode ir tranquila sim... Seu papel foi cumprido, da forma mais brilhante que poderia.
E agora não se preocupe, as lágrimas serão enxugadas por todos nós que, de alguma forma, estamos por perto do 'rebanho' incrível que deixaste.
Segue pro céu, praquele cantinho reservado para as avós... E sempre que olhar cá pra baixo, mira no sorriso daquele "meio-metro-de-gente" e tenha certeza de que deixou o melhor que podia! E ouça os versos da cançao que cantava pra te arrancar ums risada: "se você pensa que cachaça é água" e sorri, pois é a lembrança do teu sorriso tímido que vai acompanhar essas vidas para sempre!
Vai com Deus, vovó!

Para Flávia Paulo, a MINHA Guimba, para tia "carmão" e todos as sementinhas plantadas pela Vó Carmen, com muito amor, cumplicidade e meu abraço mais confortável... Uma homenagem para compensar a ausência e para dizer que lhes admiro DEMAIS!

sábado, 3 de outubro de 2009

"De todo amor que eu tenho / Metade foi tu que me deu"


1° de Janeiro de 2000

Chovia, sabe? Eu posso lembrar de cada segundo daquela manhã... Acordei enrolada no edredon cor-de-rosa, o telefone tocava. Do outro lado da linha uma voz embargada, avisando que ela não estava bem...Todos nós sabíamos, mas anjos não vivem para sempre?
Não, minha filha... Um dia eles voam de volta!
Chovia tanto, o dia estava nublado, mas em algum lugar devia haver um sol...
Por questão de dez minutos, de pura covardia, eu não pude dizer adeus. Meus passos não alcançaram, minhas lágrimas não me permitiram enxergar, minha dor não conseguiu fazer com que meus joelhos permanecessem firmes.
-Vó! Me diz que você ainda está aí?...Abre os olhos e me vê, pela última vez, por favor!
(silêncio)
-Me deixa aqui com ela...Eu só quero afagar seus cabelos branquinhos, lisos e finos como os meus...Pela última vez eu quero sentir aquele cheirinho de alfazema, sentir aquelas mãos gordinhas afagando meu rosto...Só mais UMA vez, por favor!
"Ó meu pai do céu, limpe tudo aí / Vai chegar a rainha, precisando dormir..."
Ela foi embora, no primeiro dia do novo milênio...Anunciavam um possível fim do mundo e eles tinham razão, meu mundo nunca mais foi o mesmo, sem ela.
Ela levou consigo a flor feita de palha de milho, presente de outros carnavais, e deixou um legado de amor... Sete que é conta de mentiroso ela transformou em número de sorte e somou com cinco mais um.
E eu não pude dizer, pela última vez, obrigada! E eu não pude mais ouvir sua voz doce, pedir batata-frita com couve, apertar sua barriga para ela imitar boneca de corda...Eu não pude dizer o quanto eu a amava...
-Vó!
(silêncio)
Chovia, sabe? Chovia muito...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A página de esportes (parte II)

Há menos de 24h eu fui desligada da redação graças ao post anterior...Parece incoerente, mas quem disse que coerência povoa o dicionário de todos? Quem disse que palavras leves, sinceras e carinhosas entram em todos os corações da mesma forma? Interpretar é um verbo um tanto particular, ler é simples, basta se alfabetizar, sentir?São outros quinhentos!
Existem mil maneiras de se entrar na vida de alguém, mas dure o tempo que durar a forma com que você sai e o que você deixa quando vai embora são ps fatores que dão sentido aos encontros...Em pouco mais de dois meses, eu pude conhecer todo tipo de gente e poderia, assim como fizeram comigo, julgar cada uma dessas pessoas pelo que elas me pareceram ser, mas eu aprendi com a vida, com a minha família, com os meus amigos que julgar é sentir-se superior, quando no final das contas somos (quase) todos iguais.
Profissionalmente eu aprendi um bocado de coisas, mas acima de tudo aprendi algo de valor inestimável:
- Nada, nem ninguém, nesse mundo pode destruir os seus valores!
Os meus estão guardados à sete chaves - a dignidade que aprendi com meu avô, o profissionalismo herdado dos meus pais, a coragem herdada da minha avó, a paciência e o amor infinitos aprendidos com meu filho, a cumplicidade, a verdade e a honestidade construída através das minhas amizades e o respeito ao próximo e a mim mesma- e deles eu não abro mão JAMAIS!
Poderia reclamar, poderia lamentar, poderia, sobretudo, lastimar, mas estou com um sorriso estampado e a cabeça erguida, característicos de quem sabe que fez a sua parte...
Eu levo comigo as coisas mais preciosas que poderia: Pedro Henrique Torre, EdgarD Maciel Sá, Amanda Kestelman, Dennis Nery e Rafael Cavalieri.
Afinal de contas, o sentimento não pode parar NUNCA! E nessa vida, a gente só carrega no coração aquilo que vale realmente à pena!